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domingo, 13 de outubro de 2019

O TREM
Lembro-me, com muita nitidez, da primeira vez em que viajei de trem.
Tinha sete anos e estava com meu pai.
Era um trem antigo, puxado por uma locomotiva, que fazia um som estridente, quando começava a frear. E quando começava a andar sobre os trilhos, era um som desengonçado de caixas de ferro balançando de um lado para o outro, parará...parará...parará...parará.
E eu, seduzido por aquele som e pelos vagões engatados um no noutro, corria de uma janela para a outra, para ver passar rapidamente a paisagem das ruas, casas, árvores e pessoas nas calçadas.
Meu pai, vendo minha excitação e alegria, sorria me contemplando e me lembro que disse: “ Você ainda vai ver muitos trens em sua vida e quem sabe viajar por esse Brasil a fora.Sossega seu coração, moleque.”
Fui crescendo e andei no Litorina, um trem de aço que ligava o Rio a Minas Gerais. Conheci e andei nos Maria Fumaça, no Parador, no Direto e ficava embevecido vendo passar os trens de carga, com cerca de cem vagões, levando minério e outras riquezas do Brasil.
E o apito do trem? Ah, esse nunca pude esquecer...piui....piui...piui...
Até hoje fico deslumbrado quando entro num trem, agora moderno, com ar condicionado, tela indicativa das estações e voz sonora feminina, passando orientações necessárias.
Mas há algo que muito me entristece! É quando viajo para o interior do Rio, Minas e São Paulo, e vejo que mãos incompetentes acabaram com as vias férreas, deram sumiço nos trilhos e dormentes, deixando tão somente como prova do crime, Estações Antigas, a maioria abandonadas ou invadidas. É a nossa História, a memória de um povo, que começou com as vias férreas no Império, sendo ultrajada.
Mas não é sobre isso que quero falar. Hoje moro num lugar, talvez presente de Deus, a cerca de duzentos metros de uma via férrea, por onde circulam somente trens de carga, com seus mais de cem vagões.
Eu cronometrei! Eles passam de hora em hora, sacolejando, parará...parará...parará...parará...E me brindam com um piui...piui...piui...piui...E vão passando, como uma procissão de vagões, por cerca de dez minutos. E eu, meio acordado, meio dormindo, ouço a sinfonia do trem que passa e sei que ele me reconhece e no seu arrastar de rodas de ferro sobre os trilhos, ao invés de gritar parará...parará...., soletra meu nome: pe-dro....pe-dro...pe-dro...pedro....piui...piui...piui...
Quase sempre adormeço no decorrer da sinfonia e à vezes, espero acordado, a sua volta.
Já não sei dormir sem o som amigo do trem que me acompanha desde a minha infância. E na última noite, em meu sonho-acordado, ouvindo aquele som inebriante, vi meu pai dizendo:
-“ Você ainda vai ver muitos trens em sua vida e quem sabe viajar por esse Brasil a fora. Sossega seu coração, moleque.”

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