O RETRATO
Vi-me, de repente, diante do retrato de meus pais.
Estava sobre a estante, numa moldura dourada, imponente e belo.
Chamou-me a atenção minha mãe reclinada sobre seu ombro,
Olhar meigo e confiante,
E o jeito super protetor de meu pai.
Não era um casal comum. Era especial.
Eles se completavam, se fundiam num só.
Foram e continuam sendo modelo para todos nós.
Thomaz, sempre elegante, culto e atencioso.
Ida, meiga, gentil, mais que Amélia, mulher de verdade.
Para todos eram conselheiros, o ombro amigo;
Para os filhos canal de amor e presença constante;
Um para o outro, a corda e a caçamba.
Mais de setenta anos de companheirismo,
Num mundo de uniões frágeis.
Exemplo de persistência,
Para casais que desistem ante o primeiro embate.
Exemplo de sabedoria,
Pois se casavam todo o dia,
Sabiam que o casamento era uma casa sempre em construção.
Ele se foi aos noventa sete anos,
Ela, doente, aos noventa e três,
Aguarda, no tempo de Deus,
O reencontro eterno.
Meus pais nunca morrerão.
Assim como o bem jamais acaba,
O mito nunca se extingue
E o bom exemplo se eterniza,
Assim eles viverão para sempre
Nos corações daqueles que os conheceram
E no pesar dos que não poderão mais ver para crer.
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