OUTRA HISTÓRIA DA FAMÍLIA LODI
Meu pai, Thomaz Lodi, falecido aos 96 anos, tinha uma grande admiração por um avô ou bisavô, não me lembro bem, e contava muitas histórias a respeito dele, que seu pai lhe transmitira. A que vou contar a seguir é mais uma: Ele vivera numa época em que todos os fazendeiros, como ele, tinham muitos escravos. A única diferença é que esse nosso ancestral tratava seus escravos com respeito e dignidade. Todos tinham sua própria casa na fazenda, eram remunerados e o sonho de todo escravo da região era viver como escravo do Coronel Lodi. Não foram poucas as vezes em que escondera escravos fugidos de maus senhores e os ajudara a ir embora. Por ser assim, um fazendeiro que era seu vizinho, homem violento e de mau caráter, tinha por ele um grande ódio. Certa vez, de madrugada, um empregado desse fazendeiro, que há pouco tempo fora morar numa casa de seu patrão, bem no limite das fazendas, o acordou, implorando que o ajudasse a socorrer sua esposa, que estava grávida,e sofrendo dores horríveis. Sem pensar duas vezes, nosso parente distante preparou uma charrete, com um leito improvisado, e foi em socorro da senhora grávida. Pelo caminho, em direção à casa daquele homem, ficou sabendo por ele que seu patrão se negara a socorrer sua mulher. Sabendo da boa fama do Coronel Lodi pediu a sua ajuda, no que foi prontamente atendido. Em pouco tempo percorreram os sete quilômetros que os separavam do hospital. Lá a senhora foi atendida e após um parto difícil teve um lindo menino. Nosso bisavô ficou com o homem até que tudo tivesse sido resolvido. Muito agradecido e emocionado o empregado de seu vizinho lhe contou que havia sido contratado pelo fazendeiro para lhe tirar a vida. E naquela noite de segunda feira lhe preparou uma emboscada. Contou que sabia do seu hábito de toda segunda feira assistir a Missa das almas, às sete da noite, na Igreja do Arraial. No caminho de volta à fazenda havia um mata-burro e era preciso apear do cavalo para poder passar. Foi ali, por detrás de uma elevação, que preparou a tocaia. Deitado no chão preparou a alça de mira e esperou o momento certo. De repente, no entanto, viu que o Lodi não estava sozinho. Estava cercado por mais de cem cavaleiros, o que tornou impossível o disparo. Voltou para casa sem cumprir a missão e foi justamente nessa noite de segunda feira que sua esposa passou mal e só não morreu porque o homem que ele tentara matar a salvou. Intrigado perguntou, muito contrito e arrependido:
- Coroné, quem era aquela gente?
Com um largo sorriso nos lábios ele respondeu:
- Meu amigo, eu estava sozinho, como acontece toda segunda
feira quando vou ao Arraial assistir Missa e resar pelas almas do Purgatório. Foram elas que me salvaram e também à sua esposa e seu filho.
- Coroné, quem era aquela gente?
Com um largo sorriso nos lábios ele respondeu:
- Meu amigo, eu estava sozinho, como acontece toda segunda
feira quando vou ao Arraial assistir Missa e resar pelas almas do Purgatório. Foram elas que me salvaram e também à sua esposa e seu filho.
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