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quinta-feira, 20 de março de 2014

MISÉRIA HUMANA Eu vinha caminhando pela calçada, imerso em meus pensamentos quando ele se aproximou, vindo de direção contrária, e com um olhar de profunda humildade e reverência falou: Moço¸ eu estou com muita fome, o senhor poderia me dar dois reais para comprar um prato de comida? Em seu olhar havia tanta dor e medo, em sua voz trêmula, tanta insegurança, em seus gestos tanta submissão, talvez por já haver recebido “não” de outras pessoas, e com certeza já se preparando para outro não, que me comoveu profundamente. Comparei-me a ele por instantes, e vi que tinha os mesmos direitos que eu de ter garantida a sua sobrevivência, de andar de cabeça em pé, de não se sentir humilhado. Mas ali estava ele, sem invocar direitos, sentindo-se o menor de todos os homens, quase pedindo desculpas por estar com fome, olhando-me com um olhar de criança carente, esperando por um pequeno gesto de caridade. -A vida está difícil, não é amigo, disse-lhe eu, vasculhando o bolço em busca de dinheiro. Finalmente encontrei o que buscava. Não era muito pois não saíra de casa prevenido. Dei a ele cinco reais, envergonhado por naquele momento não ter mais para lhe dar. Ele recebeu a nota sem ver quanto era, disse um obrigado singelo, mas quando viu qual era o valor, voltou com um sorriso que jamais esquecerei: - Obrigado, moço, que Deus lhe pague... nem sei com o agradecer... Apertou-me a mão com carinho, os olhinhos brilhando, e lá se foi para comer o seu prato de comida. Fiquei sem ação. Não sabia o que fazer. Ele já sumia na esquina e eu ali parado, sentia o coração tomado de angústia pela sua pobre condição humana e pelo pouco que eu fizera. Ali na rua, rezei por ele, rezei por mim e por todos que têm responsabilidade social diante de tanta miséria. Era um sofredor, mas possuía tanta mansidão e humildade que servia de exemplo para o mundo. Era um mestre que ensinava, a quem quisesse aprender, a força do amor, da simplicidade e da esperança. Lembrei-me da Bem Aventurança profetizada pelo Divino Mestre: Bem aventurados os mansos e humildes pois eles herdarão a terra. E sonhei com um mundo de pessoas como aquele homem, que jamais esquecerei, distribuindo paz e harmonia com o olhar, com a voz e com os gestos.

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