O
OCASO
Sentei-me ao seu lado, olhei para ele, carinhosamente, e me
lembrei do homem que fora, alto, forte, resoluto, muito inteligente, com
facilidade de expressão, uma cultura geral invejável e agora, ali, em sua
cadeira, com 98 anos vividos, alheio à vida e a tudo que viveu no passado.
Puxei conversa. Falei sobre os livros que escrevera, sobre a
Igreja, assunto que o fascinava, sobre a atual política, e o máximo que recebi
foram respostas monossilábicas.
Comentei sobre os seus seis filhos, bisnetos e netos,
consegui dele um sorriso de alegria, mas sua memória falhava e não conseguia
lembrar-se de todos.
De vez em quando saia de seu silêncio e perguntava a respeito
de minha família, se tinha filhos, eu respondia com detalhes, mas poucos
minutos após repetia as mesmas perguntas, como se fora a primeira vez.
E assim a manhã
passou, até que se levantou, foi para a sala, se espreguiçou em sua cadeira de
balanço, inclinou a cabeça e dormiu.
E fiquei ali observando o homem de mil atividades, agora um
ancião no ocaso da vida.
Foi fonte de cultura, saber, comportamento moral, social e
religioso para todos os filhos. Parte de sua sabedoria, amealhada em quase um
século de existência, foi distribuída pelos seus descendentes.
É triste ver uma vela que se apaga.
Mas ele tem sido mais que uma vela. É um cometa luminoso que
ainda continua riscando o céu de nossas vidas.
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