O ELEVADOR
Era segunda feira e eu estava decidido a tomar uma atitude
que vinha protelando há muito tempo:
vender meu sítio.
Era uma decisão difícil, pois sou apaixonado pela natureza e
meu sítio é um santuário de preservação ecológica. O que pesava contra era o fato de que minha família
quase não freqüentava o sítio e o custo de manutenção era muito alto.
Enquanto caminhava para o prédio da Corretora, mil
pensamentos iam e vinham a minha mente. Ali vivera os melhores dias de minha
vida. Aprendi com a natureza viva o respeito e admiração pelos animais, pelas
florestas, pelos rios. Foi lá, no sítio, que pela primeira vez olhei extasiado
para o céu, à noite, e descobri a
suntuosidade e beleza do espaço
azul engalanado se debruçando sobre a
terra. Em quantas noites, sob a luz do
luar, em volta de uma fogueira, ouvi e contei casos e causos, admirado com a
singeleza do homem da terra.
Parei diante do prédio da corretora e vi nele um monstro
mitológico tentando devorar meus sonhos.
Era um prédio de três
andares. No primeiro funcionava a portaria e uma lanchonete; no segundo, a
corretora e no terceiro, diversos escritórios.
Como era um só lance de escadas, resolvi subir por elas. Uma placa dizendo “ escada em
obras” fez-me buscar o elevador.
Entrei no elevador e acionei o botão do segundo andar. Em
poucos segundos cheguei ao meu destino. Abri a porta e saí. Uma enorme surpresa
me aguardava. Deparei-me com um cenário que não tinha nada a haver com um prédio comercial. Fechei e abri os olhos
várias vezes, mas o cenário não mudou.
Perplexo me via diante de uma imensidão verde, ornada com jardins das mais
variadas flores e cores. Um riacho serpenteava em meio às arvores e às suas
margens, animais de pequeno porte
nadavam prazerosamente. Uma brisa suave
balançava o arvoredo e refrescava o meu corpo.
Voltei-me para o elevador e ali estava ele, em meio aquela paisagem, como uma grande caixa,
destoando do ambiente. O vento balançando
os galhos das árvores, fez com
que um deles roçasse em meu rosto e deixasse cair uma flor verde azulada.
Abaixei-me e a recolhi. Meio confuso,
abri a porta do elevador, apertei o botão do terceiro andar e esperei o sinal
de chegada. Lentamente abri a porta e deparei-me com um corredor repleto de escritórios comerciais. Fechei a porta e acionei o botão do segundo
andar. Assim que o elevador chegou, abri a porta rapidamente e.... ali estava o
escritório da Corretora. Ao sair,
abismado com o acontecido, fui logo abordado pelo profissional que já me
esperava e que me deu as boas vindas. Pensei
haver desperto de um sonho, fruto
da minha imaginação e de minha tristeza em ter que vender o
sítio, quando o corretor me disse:
- Bonitas flores, onde as conseguiu? É uma mistura de cores
muito raras.
Só então me dei conta de
que o que havia acontecido não era imaginação. E respondi a ele,
alegremente:
_ São flores do meu sítio. E graças a elas decidi-me a não
vendê -lo mais.
De volta para casa, sem saber o que dizer à família, mas
convicto da minha decisão, fiquei imaginando o quanto eu era rico. Afinal de
contas, num mundo onde as natureza estava
morrendo, eu era dono de um
pequeno paraíso, verdadeiro portal da
natureza.
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