O ESPELHO
Não! Esse que aí está não sou eu.
Esses olhos cansados não são meus.
Nem tão pouco esse rosto enrugado,
O reflexo do meu rosto.
Esses cabelos prateados,
Quando surgiram que não notei?
Quem é esse que me fita do espelho,
Carcereiro de minha alma,
Envelhecido e curvado pelo tempo,
Incapaz de refletir meus sonhos e anseios?
Não! Não sou eu.
Não é assim que me sinto.
Onde está o jovem que pulsa em meu peito,
Repleto de ideais?
Como essa casca ressequida
Poderá conter o amor
Que ainda falta viver?
Como esse rosto cansado
Poderá expressar o entusiasmo
Que ainda brota em meu ser?
Olho firme a figura do espelho,
Que copia o original, impiedosamente,
Mas não consegue refletir a alma
Fonte de toda a vida.
Sim! Sou eu, a figura do espelho.
Mas apenas uma caricatura.
É o tempo que debocha da vida,
Realçando as imperfeições externas.
Mas o espírito que é eterno,
Escapa ao poder do tempo,
E não pode ser refletido,
Com sua juventude e ardor.
Já não me importo.
Sou mais que um espelho;
Bem mais que um reflexo.
Sou o que penso que sou;
Sou o que sinto;
Sou o que sonho e vivo;
Sou a soma de meus ideais;
Sou a esperança da realização;
Sou a certeza da vida que pulsa em mim.
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